Os pais não têm de desistir dos filhos, mesmo quando estes constroem barricadas como se estivessem em um teatro de guerra. A expressão do amor dos pais será o instrumento que poderá aliviar a dor que, às vezes, os filhos vivem no silênciso da sua intimidade. Aqui falamos, especialmente, daqueles que se tornaram filhos por adoção. Há momentos em que reúnem sua coleção de “fantasmas”: medo, abandono, rejeição, impotência. São vivências trazidas de um passado que, ficando para trás, continuam existindo de uma forma mais ameaçadora, por relembrarem dores antigas. Na criança e no adolescente o “antigo” é tão recente que se confunde com o presente. É preciso que os adultos não se descuidem ao imaginar que o passado foi imobilizado pelo amor do presente. As dores subjacentes ao presente formam áreas doloridas que só a ternura sem tempo para terminar poderá ajudar os filhos na sua construção de uma nova história, sabendo que o amor novo é suficiente e forte para tornar-se permanente.


SUMÁRIO

  • Por que uma pedagogia da adoção?
  • A singularidade da história pessoal.
  • Os momentos pessoais do desenvolvimento.
  • Como se fosse meu filho.
  • A adoção como suprimento de uma falta.
  • A impotência e a filiação adotiva.
  • A escolha bilateral.
  • A família extensa e o processo adotivo.
  • Virtudes e defeitos do filho adotivo.
  • A transposição dos vínculos adotivos.
  • Esconder-se para ser encontrado.
  • Expectativas inibidoras.
  • Aprendizagens básicas à subsistência.
  • A aprendizagem e a confrontação com o novo.
  • O momento pedagógico.
  • As dores e os prazeres da adoção.
  • O espaço pedagógico.
DESTAQUES

Os “direitos” que temos sobre os filhos são, na realidade, tudo o que decorre do relacionamento que estabelecemos com eles e que retornam pela dinâmica natural da interação. Se amarmos, haverá a possibilidade de sermos amados; se abandonarmos, poderemos ser abandonados; se desconhecermos suas singularidades, correremos o risco de não sermos reconhecidos.

A segurança de que os filhos carecem é aquela que existe (ou não) nos seus pais. Nesse sentido somos responsáveis por esse elemento de profunda relevância para que dele os filhos possam se valer a fim de elaborar sua forma peculiar de ser pessoa. Nossa responsabilidade não está só no fazer o que é necessário e adequado, mas, sobretudo ser para os filhos uma referência educativa. Referência não é um modelo a ser imitado ou repetido, mas uma exemplificação para que os filhos dela se aproximem ou se afastem conforme o conjunto de suas singularidades e contingências encontradas no seu ambiente histórico-familiar.

Se persistir em nossa consciência, ou mesmo reprimido no inconsciente o sentimento de que o filho adotado é “como se fosse filho”, ainda estaremos longe da verdadeira filiação. Não existe a condição de “mais ou menos filho”. A filiação só existe na sua inteireza.

Assumir uma atitude contra o preconceito é mais do que investir contra os preconceituosos; é não absorver a ação desumana do outro que preestabelece conceitos fundamentados apenas nas suas preferências, negando aos demais o direito de viver em conformidade com suas características pessoais. Não aceitar o preconceito é viver confortavelmente dentro da realidade do filho que se tem. No que diz respeito ao filho adotivo, é vivenciar intensamente sua condição de filho e sua história de adoção sem se sentir agredido pela discriminação que venha de terceiros.

Na adoção, quer queiramos ou não, somos seguidos pelo inconsciente, que insiste em substituir as dessemelhanças por aquilo que se assemelha a nós. Busca-se a todo custo o a semelhança do filho com seus pais adotivos, provavelmente como  um esforço para reduzir a importância das ligações genéticas com os pais de origem. É como se, por um esforço afetivo, se pudesse apagar as marcas do que é biológico. Esse investimento desnecessário, porque ineficaz, é a expressão da fragilidade do desejo de filho. Não importa como seja o filho quando nós o geramos. Por que seria execrável a dessemelhança por não termos participado do processo procriativo?


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